quinta-feira, 1 de julho de 2010

Todo mundo espera alguma coisa de um sábado à noite... ou não.

São quase uma da manhã, 00:58 pra ser mais exata, minto 00:59. Entre o sono profundo e a balada minha família está a léguas daqui nesse momento, sendo assim, estou tecnicamente sozinha em casa. Sozinha num sábado à noite. Parece pesado, de fato já me pareceu um dia, desesperador eu diria, mas hoje não. As formas de subornar a mim mesma, outrora tão utilizadas, parecem já não me agregar mais valor real. Não sei se de fato toda aquela parafernália de maquiagem, salto alto, som alto e diversos elementos suspeitos em elevado grau etílico me cercando, de fato eram um suborno, ou simplesmente uma forma de me esconder de mim mesma.
Uma vez, há muito tempo atrás, muito mesmo, quando eu era bem novinha eu me encantei com alguém. Naquela época eu não tinha discernimento, ou base de comparação, pra poder entender ao certo o que eu estava sentindo. Só sei que esse encantamento virou amor, sim amor, e perdura até hoje, só o que eu não entendia é que aquela intensidade de amor não era o bastante, pelo menos não pra mim e descobri isso após ser acometida por uma “paixonite”, que nada mais é do que uma sub paixão, ou uma quase paixão, como queira. E assim como o vento, que apaga as velas e acende as fogueiras (bonito isso, li em algum lugar) a distância se encarregou de fazer o serviço sujo e evidentemente, tudo não passou de uma breve palpitação. Algum tempo passado, o vento voltou balançar as folhas nas bandas de cá. Aprendi que quando se ama não se aceita tudo que o outro nos oferta, aliás, desconfio de que onde se diz sim a tudo haja falta de amor, talvez o mais essencial de todos, o amor próprio. Mas aprendi também que a paixão causa cegueira absoluta e por tempo indeterminado. E por pior que tenha sido, por mais dolorido que tenha sido boa parte do decorrer e principalmente o desfecho da ópera, jamais duvidei de que aquele sentimento que conheci naquela determinada circunstância era a tal da paixão, a legítima.
O amor é um só. Discordo terminantemente de que existam diferentes categorias do mesmo, como amor materno, paterno, fraterno... São diferente intensidades, mas a essência é a mesma, única, imutável. O amor agrega a admiração, o respeito, a consideração, de uma maneira genuína e espontânea, não por medo ou por qualquer tipo de obrigatoriedade. O amor é construído, às vezes depressa, às vezes devagar, mas ele tem fundamento, solidez. O amor não acontece simplesmente, ao contrário das paixões, que chegam sem avisar, entram sem pedir licença e se instalam sem solicitar a autorização do hospedeiro. São errantes e invadem sem dó e com requintes de crueldade, transformando solo sagrado em campo minado. Mas quando se encontram, amores e paixões, são incríveis, imprescindíveis, quase invencíveis. Por mais que nos apaixonemos subitamente por alguém, é extremamente difícil manter essa emoção de forma linear sem a plenitude do amor.
Por vezes amamos alguém, embora não tenhamos paixão pelo mesmo, ou não tenhamos mais. Por outro lado, às vezes somos acometidos por uma paixão nocauteante, mas não chegamos a desenvolver amor, ou ele simplesmente ainda não amadureceu. Mas entre uma coisa e outra, o mais importante é o amor que desenvolvemos por nós mesmos, a forma de nos conhecer profundamente, saber quem realmente somos, o que gostamos, o que queremos, de encontrar nosso lugar no mundo. E ninguém no mundo jamais estará pronto para amar ou ser amado enquanto não desenvolver uma relação intima e profunda de respeito e admiração consigo próprio. Raciocínio narcisista o meu? Até pode ser, dependendo do ponto de vista. E daí? Pelo menos eu me dei a chance de me conhecer, de entender que por várias vezes é muito melhor ter uma conversa inteligente e amigos em quem se possa confiar ao invés de gastar uma grana obscena para estar rodeada de gente vazia e beijar umas bocas repetidas com o simples objetivo de tentar não lembrar daquilo que quero esquecer, tendo a divina oportunidade de entender que muitas vezes ficar sozinha em casa num sábado à noite não é uma forma de me esconder do resto do mundo mas de me mostrar de verdade, nem que seja apenas pra mim mesma.